Os desenhos mais originais

A exposição MADE IN NEW YORK reuniu os primeiros 12 desenhos realizados pelo robot RAP (Robotic Action Painter) em Nova Iorque, entre Fevereiro e Outubro de 2007, enquanto "artista residente" do Museu de História Natural de Nova Iorque.

Sobre o RAP ver aqui ou aqui







ny-op, 2007, tinta sobre papel, área de desenho 47 x 54 cm, com moldura 76 x 83 cm


No início deste ano fui a Nova Iorque buscar os primeiros desenhos realizados pelo robot RAP no Museu de História Natural de Nova Iorque. RAP pinta num rolo de papel com 50 metros de comprimento consumindo cerca de 2 metros para cada obra. Leva entre uma e duas semanas a completar um desenho. Considerando algum desperdício do início e do fim, esse primeiro rolo, realizado entre Fevereiro, data da inauguração, e Outubro de 2007 resultou em cerca de 20 desenhos. Alguns correspondem a testes e outros estão inexplicavelmente adornados com inscrições e garatujas da mão do tratador do robot, um jovem aspirante a artista responsável pela manutenção do Museu. Doze desenhos estão perfeitos e serão exibidos na mostra MADE INNY, na minha Galeria em Lisboa, em Abril próximo.
Estes desenhos são produto da criatividade de um robot confinado a uma vitrina e sem qualquer intervenção externa. A única manutenção requerida ao pessoal do Museu consiste na mudança uma vez por semana das canetas. Tudo o resto é determinado pelo próprio robot, desde a composição do desenho, o momento em que este está terminado ou a alimentação de nova folha de papel. RAP também assina as suas obras. Para mais só desenha na presença de visitantes, ficando em estado de expectativa quando estes não circulam junto à vitrina e durante a noite.
Estes desenhos foram realizados numa condição de extrema autonomia. Não há ninguém para ajudar, corrigir qualquer pequeno erro, safar o robot de uma situação menos agradável. Eu próprio estou a milhares de quilómetros de distância. RAP é um artista abandonado à sua sorte num espaço confinado e que se dedica por sua conta e risco à criação de obras originais produto da sua própria percepção sobre o pequeno mundo em que vive.
Por isso os sensores são tão importantes. Permitem-lhe situar-se no seu ambiente, decidir quando, onde, quanto e como desenhar, quando e onde assinar, quando e como solicitar mais papel, quando desenhar, quando parar por ausência de espectadores e muitas outras funções.
Mas sendo RAP um pintor são naturalmente os "olhos" colocados na sua barriga a componente morfológica mais importante. RAP tem 9 olhos dispostos numa grelha de 3 x 3, o que lhe permite ver zonas coloridas mas também pequenos padrões. É através destes que ele determina se o desenho precisa de mais trabalho ou já está perfeito. Ou seja, quando se produz o "sense of rightness", esse sentido de que as coisas estão perfeitas, e a obra pode ser dada por terminada. É também com estes 9 olhos que RAP detecta as zonas de maior concentração de cor, as mais interessantes para ele, ou as zonas sem cor e portanto menos atraentes. Daí que RAP tenda a gerar clusters, ou seja manchas de colorido, reveladoras de que o seu processo de criação de um desenho não assenta exclusivamente no factor aleatório.
Isso mesmo pode ser comprovado olhando para estes 12 desenhos. Embora o estilo seja similar, não há dois iguais. Nem nas formas, apresentando uns uma grande mancha e outros duas ou mais, nem no colorido que também varia bastante. Vistos em conjunto estes desenhos fazem lembrar imagens de galáxias, com grandes concentrações de estrelas ou em rota de colisão entre várias concentrações mais pequenas. O que não deverá surpreender pois o processo, baseado nas teorias do caos, da auto-organização e da emergência, tem algo em comum com a formação do universo e da matéria e em geral com os sistemas biológicos.
Os desenhos de RAP são obras de arte de uma extrema originalidade. Não existe nada de similar na produção artística contemporânea. Não tenho dúvidas de que constituem um marco da arte do futuro.

Leonel Moura
Março de 2008