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Os homens-lixo
Leonel Moura
Edições Fenda - Lisboa (texto integral)
Parte 4

A linguagem económica é em si mesmo reveladora da sua qualidade anti-humana. Veja-se, por exemplo, a noção de produto.
De matéria resultante de um processo produtivo, exprime hoje coisas tão diversas quanto um parafuso, uma banana, um faisão, uma pessoa ou o prazer de mergulhar no Verão numa água salgada e fresca do oceano Pacífico.
Esta questão não é de somenos importância. Porque o económico e o seu linguajar tendem a transformar a experiência, o vivido, numa representação consensual onde se perde qualquer característica única e irrepresentável.
À medida que a reificação do vivido alastra, tudo recuperando numa mera representação, tanto mais o momento da experiência verdadeira deve deslocar-se para um terreno exterior a toda a mediatização e espectacularidade. E porque a sociedade do capitalismo se entende como única lei e única ordem possível, esse terreno adquire um nome. Chama-se ilegalidade. Sendo aqui o lugar onde ainda se procuram resíduos de felicidade. O ser só, contra a norma e absolutamente abandonado à sua própria sorte.

A irresolução do nosso mundo deriva da incapacidade prática de entender os problemas, já que sendo estes da ordem do sistema, só permitem a sua ampla percepção a partir de um ponto exterior ao mesmo.
A fome, a degradação ambiental, as guerras, são três exemplos maiores das consequências directas do capitalismo, cuja solução é posta nas mãos dos seus maiores defensores. Ou seja, entrega-se o esclarecimento do crime ao próprio criminoso.

Vivemos numa sociedade em que o dinheiro determina todas as iniciativas. Para cada acção é necessário encontrar financiamento e este deve ser rentabilizado. Ou seja, nada se faz que não prometa um lucro qualquer. A ciência, cujo fundamento reside na investigação pura, isto é, sem destino, deve agora ser vendida antes mesmo de se conhecerem os seus resultados.
Por isso a promoção da ciência tem nestes últimos anos vindo a deslocar-se para o próprio cientista e sua capacidade de gerar espectáculo científico. Saindo dos laboratórios e tornando-se figura pública, o cientista dispõe-se a negociar a sua imagem e investigação para uma rentabilização política. Aquilo que outrora foi um terreno de aprofundamento do conhecimento, partilhado por sábios, tornou-se agora num evento mediático em que pouco interessa a matéria em causa, desde que esta possa ser apresentada de forma espectacular. Ao político, interessa saber se um determinado projecto científico pode ser traduzido em tempo de antena na televisão. Se essa garantia fôr dada, o financiamento é concedido.

Temos assistido a factos surpreendentes. O cíclico entusiasmo popular, por matérias que profundamente se desconhece, é a todos os títulos notável. Durante uns dias anda o mundo inteiro suspenso por eventos que vão ocorrer em Júpiter. Este planeta torna-se tema de conversas, é introduzido no circo político, origina discussões familiares. Apesar disso a quase totalidade das pessoas não sabe rigorosamente nada sobre Júpiter. E uns dias depois de terem sido exibidas obscuras imagens do dito planeta, onde supostamente algo de extraordinário aconteceu, continua a nada se saber e passa-se de imediato a outro grande e profundo assunto. A divulgação científica, não é hoje mais do que a celebração entusiástica da ignorância.

O anúncio precipitado de descobertas científicas, é outro dos resultados surpreendentes da corrida à notoriedade pública e ao dinheiro. Mais do que noutras actividades humanas, a ciência deve obrigar-se a princípios de seriedade e fiabilidade absolutamente inquestionáveis. Cada vez que um cientista erra, é a própria ciência que se desacredita.
A cedência dos cientistas aos prazos da política ou dos momentos mediáticos, sob a forma de congressos e encontros internacionais pré-datados, é uma das consequências mais perversas do contrato financeiro estabelecido e suas contrapartidas.
Quantas vezes se arrisca o saber em nome de uma antecipação espectacular?
A dependência da ciência do poder político e dos interesses do dinheiro, vai desviando a investigação daquilo que é mesmo importante investigar, para aquilo que é mais fácil mediatizar. Por isso a pergunta é legítima. Será que a ciência ainda está a investigar alguma coisa, ou já está a investigar uma coisa qualquer?

Marie Curie queixava-se dos salões de Sarah Bernhardt. Não tanto pela natureza cultural dos mesmos, mas pela riqueza que exibiam e que a ela, investigadora científica, faltava. Não entendia como a poesia e a pintura atraíam tanto a gente de dinheiro, como alguns ricos adoravam sustentar artistas, enquanto a ciência, que trabalhava para o bem da humanidade, era votada ao abandono e progredia na mais declarada miséria.
Hoje não são só os artistas que animam os salões dos ricos e poderosos. Os cientistas também o fazem.

Esta renovada credulidade tecnológica, que se alimenta tanto das máquinas propriamente ditas, quanto de figuras complexas da imaginação, como seja a virtualidade, exprime-se também sob a forma de novas utopias. A maior de todas, diz respeito à democracia virtual. No duplo sentido de que o computador providenciará uma alargada e vasta conexão entre as pessoas, as defenderá das várias formas de totalitarismo e lhes concederá um manancial de informação, em si mesmo, objecto e objectivo do novo homem-tecnológico.
Mas também, num sentido mais pragmático, no pressuposto de que a banalização da computorização tenderá a eliminar barreiras sociais, criando acessos universalizados e circulações mediatizadas. Todo este projecto grandioso tem aliás uma palavra central: conectividade. Ilusório substituto da comunidade.
Mas há sempre algo de irreparável no tecnológico. Ao definir-se através de um conjunto de modelos, exprime sempre a possibilidade e não a contingência. A conectividade sem parti-lha do espaço comum, não permite a expressão social e política do humano. Pelo contrário, isola-o.

Da civilização Gutenberg à civilização Hertz ganhou-se imaterialidade e virtualidade comunicacional. Mas, ainda que as ideias passem a circular sem suporte material, o seu controlo ideológico não deixou de se reforçar. Hoje, apesar do extraordinário avanço tecnológico e da enorme diversidade dos transmissores e receptores, nada de substancial mudou nas relações sociais. Afinal, somos atravessados por milhões de mensagens, mas que dizem todas uma e a mesmíssima coisa.

Esse espaço global de que tanto se fala, onde multidões trocam mensagens fúteis através de redes computorizadas, fazem compras e um dia escolherão líderes, arrisca de se tornar no projecto mais sinistro de normalização do ser humano de que há memória. A digitalização das trocas afectivas e linguísticas, na negação do encontro e da partilha, poderá reforçar a solidão e a separação e despojar o homem do último resto de humanidade. Extinto o prazer do convívio, longe do corpo e do som da palavra dita, a conversa do humano com o humano estará então irremediavelmente acabada.

A civilização ocidental transformou o planeta num imenso manicómio. Onde as coisas obviamente demenciais são tidas por normalidade e a lucidez é vista como desvio. Massas imensas entregam-se assim a uma natural recusa da alienação imposta. Caindo em formas radicalizantes de comportamento e despojamento social, através do consumo da droga, do alcoolismo, da marginalidade ou do suicídio. Desgraçando vivências banais, mas com o mérito de registar a não consensualidade do sistema capitalista e sua arquitectura civilizacional. De tal forma é vasto o desvio, que a história contemporânea, mais do que ser vista como celebração da vitória capitalista, pode ser encarada como um tempo de resistência, por todos os meios e em todos os instantes, a essa mesma aparente vitória. Na conquista da dignidade.
Como sempre, o acto fundamental, aquele que será a memória do futuro, é o que menos se entende no presente.

Uma sociedade que se funda na acumulação de capital está condenada à catástrofe. Não pela maldade dos ricos, mas porque é da própria lógica da acumulação que nasce o momento do esgotamento. Vão-se consumindo os recursos naturais, poluindo os rios, os mares e a atmosfera, extinguindo as espécies. Derrubam-se florestas inteiras, devastam-se continentes, chacinam-se existências. Numa espiral de disparate que já ultrapassou o limite da demência. Na cidade do México, por cinquenta escudos, pode comprar-se uma máscara contendo um minuto de ar puro.
Tudo isto em nome de Wall Street e de um bem-estar minoritário, mais virtual que real. Levados a consumir obsessivamente coisas, transformados em fantasmas mediáticos, os homens abandonaram-se, desprezaram-se, perderam o dom da fala. Dos cinco sentidos originais, três estão já atrofiados e os outros dois possuídos pela extrema dependência audiovisual.

Os filmes de ficção científica, cuja acção decorre no futuro e tantas vezes num futuro bem longínquo, exibem um enorme retrocesso não só nos décors e guarda-roupa, mas essencialmente nas relações sociais que caracterizam. Imperadores, reis e rainhas protagonizam histórias e aventuras, à frente dos seus exércitos e súbditos que embora pilotando naves espaciais, exibem relações de tipo feudal, onde toda a crítica e confrontação social se encontra ausente. Vivendo já no terreno da fantasia no presente, o capitalismo pensa a superação como um inevitável retrocesso. Não imaginando, por um só momento, o seu declínio e o surgimento de novas formas de organização do espaço comum. Colocando-se assim num fim de história ideal, para além do qual o mundo será ensombrado por princípes negros, imperadores demoníacos, tiranos implacáveis.

A transformação da vida quotidiana e da sociedade em paisagem mediática, aliada à velocidade da circulação da informação, provocam uma espécie de elasticidade no tempo real. O presente torna-se enorme, enquanto o passado parece minúsculo. O que demorava uma década a ser socialmente digerido, consome-se hoje num ápice. E o que foi adquirido noutros tempos vai resvalando para o esquecimento. Veja-se como o 25 de Abril se tornou num objecto tão distante, tão pré-histórico, tão irrelevante.
O presente mediático provoca uma suspensão do tempo que atira os eventos passados para um profundo vácuo. A memória, essa forja das identidades, vai faltando e tal como nos idosos, aparece por vezes em breves luminosidades, mas sem que se recorde o contexto preciso das ocorrências.

A memória, que é hoje um espaço cheio de buracos, omissões e parcialidades, é igualmente adulterada por um discurso político legitimado por citações convenientes.
Feito homem-espectáculo o político presta-se ao resumo do real. Colabora no encurtamento do passado, em nome do sempre apressado tempo mediático. Preferindo a imagem, à experiência.

A crise actual das democracias burguesas inclui uma crise das condições relevantes para a exposição dos governantes. As democracias expõem o governante, em pessoa, perante representantes eleitos. O parlamento é o seu público! Com as inovações do equipamento de registo que permitem que o orador seja ouvido por um número ilimitado de pessoas enquanto profere o seu discurso, e pouco depois divulgar a sua imagem também para muitas pessoas, a exposição do homem político perante esse equipamento de registo passa a primeiro plano. Tanto os parlamentos como os teatros estão a ficar desertos. A rádio e o cinema alteram não só a função do actor profissional, mas também, exactamente da mesma forma a função daqueles que, como o fazem os governantes, se apresentam perante os meios de comunicação.
O sentido desta alteração é o mesmo tanto no que respeita ao actor como ao governante(...). Promove a exposição de desempenhos controláveis e até transmissíveis, sob determinadas condições sociais. Isto resulta numa selecção, selecção perante o equipamento que faz com que a estrela ou o ditador sejam os vencedores.
Estas palavras de Walter Benjamin, o pensador alemão que perseguido pelos nazis, morreu quando tentava chegar a Lisboa, prenunciam a crítica à sociedade do espectáculo realizada mais tarde.
Na passagem do acontecimento para a sua mediatização, Walter Bejamin entendeu que o político tal como o actor, ainda que ganhando no domínio da representação, perde no terreno da presença.
A comparação entre actores e políticos não é aliás casual. Ambos deslizavam já para o espectacular, onde se favorece o estrelato e a demagogia, e onde se perde a ideia e a ética.

De Walter Benjamin a Guy Debord, a crítica e a definição do sistema capitalista enquanto sociedade do espectáculo, apura-se. A exposição permanente do político através dos media, já nada tem que ver com a presença de um qualquer projecto político, mas sim com a afirmação do próprio espectáculo. Onde tudo se deve submeter às suas leis e para glória exclusiva deste. A debilidade do homem político face a esta absoluta exigência é notória. Mesmo o maior humorista, por vezes não tem graça nenhuma. Mas se neste a falta de piada resulta num sorriso amarelo, num político o desaire paga-se. Em descrédito do próprio, mas também do sistema.

Para Roland Barthes, Garbo pertence ainda a essa fase do cinema em que a percepção do rosto humano lançava a maior perturbação no meio das multidões, em que as pessoas se sentiam totalmente perdidas numa imagem humana.
Da apresentação do humano, o espectáculo passou a uma representação de si mesmo.
Ao aceitar a condição de entertainer, o político adquire uma capacidade comunicacional na área da ficção, mas perde verdade. Já que, ao contrário do que acontecia no início da história do cinema, o espectador de hoje já não confunde ficção com realidade. Sabe perfeitamente que o lado espectacular, é também o lado da mentira organizada.

Quando alguém é eleito deixa de representar quem o elegeu, para passar a representar o próprio sistema representativo. É nesta perversidade que a ideia de pertença, social e até humana, se perde. Ao escolher a representação do poder, o político separa-se dos outros. Irremediavelmente.
Neste sentido pode falar-se de um homem-político, enquanto entidade privada e não partilhada, com o qual a restante humanidade pouco ou nada tem em comum.

Na representação democrática, aparentemente unitária, opera-se um desligamento. Através da eleição escolhe-se o representante, mas este no momento da investidura afasta-se do próprio processo de escolha, para se dedicar à representação exclusiva de uma parte. O poder em si mesmo. Por isso nunca se vota verdadeiramente em alguém, mas antes se transfere uma pequena força para um poder maior.
A particularidade de cada voto, perde-se na agremiação. Seja ela o partido, a associação cívica ou o sindicato. Uma vez efectuada a transferência, o poder adquirido torna-se irrevogável e totalitário. Ainda que na aparência representando a parte, o poder democrático exerce-se em regime de poder absoluto sobre todos. Incontestável.

A divisão de tarefas é evidente. O empresariado entende-se como gestão de todos os aspectos da vida corrente. A política é a sua burocracia. Os governos mantêm a ordem pública.
Nas democracias contemporâneas a separação não pára de aumentar. Porque já nenhum objectivo social e comum predomina sobre os interesses privados. Dependente da economia, a política transformou-se numa actividade egoísta, sem princípios, nem ética. Onde quase todos buscam o seu próprio benefício, utilizando a causa pública como forma de promoção e enriquecimento pessoal.
A política deixou de ser entendida como acção, geradora de eventos, já que só estes garantem a mudança. Pelo contrário, assume-se agora como mecanismo que visa obstar a que algo aconteça.
Aquilo que se vai chamando pragmatismo, consenso ou centrismo, significa que nada deve mudar, que nenhuma alteração da ordem do sistema é tolerada e que o curso dos desígnios económicos deve prevalecer sobre todas as coisas.
Vivemos sob o domínio de um aparentemente consensual partido da inércia.

Para o capitalismo, primeiro existe o indivíduo e só depois a sua socialização. Esta resulta essencialmente numa série interminável de conflitos que são de novo reconduzidos à própria condição humana e donde se ilude a natureza social dos mesmos. O crime, por exemplo, continua a ser visto como a deriva da maldade.
A mediação entre indivíduo e sociedade, sendo o objecto mesmo da actividade política. Não porque se considere o conflito social, mas porque se pensa que algo deve limitar o humano nos seus impulsos obscuros e selvagens. Por isso a política necessita de um vasto espaço administrativo, o Estado, e de uma violência, o exercício do poder.

Nas democracias modernas a linguagem política é essencialmente autoritária. Legitimada por um sistema de representação que não é permitido contestar e por um destino rigorosamente parcelar, mas que se pretende unitário, confunde-se com a própria realidade. Num apreço absoluto pelo Estado e numa acção radicalmente intolerante perante tudo e todos que não se enquadrem perfeitamente no estabelecido.
Mas as democracias capitalistas são também dominadas por homens sem talento, nem escrúpulos, que vêem na sua ascensão ao poder uma determinação existencial sobre todos os outros. Decidindo, manipulando, reprimindo na base de pressupostos nunca verdadeiramente racionalizados por ninguém.
É nessa discrepância entre autoritarismo e ineficácia que a crítica social ainda vai tendo espaço de afirmação. Na inépcia, erros e volubilidade dos homens do poder, o totalitarismo das nossas democracias declara-se em toda a sua evidência.
Daí que a crítica da política, dos políticos e do sistema político se apresente tão urgente e decisiva.

O descrédito dos homens e das palavras do poder, o desaparecimento daquele efeito de verdade inerente ao exercício dos governos, é um dos aspectos mais relevantes da crise das democracias. À medida que a política vai aumentando a sua capacidade de mediatização, vai perdendo representatividade.
No entendimento de que o Estado é a gestão da mentira oficial, a política contemporânea não pára de se desacreditar.
Assim, certas pessoas, podem de um momento para o outro e perante circunstâncias inesperadas, revelar com toda a violência a realidade.
Assistindo-se então a um desmascaramento, numa constatação que fez tese. No mundo realmente reinvertido, o verdadeiro é um momento do falso.
Acontece com assaz frequência, quando certos homens poderosos, apanhados nas teias contraditórias do sistema, se vêem acusados de crimes, perseguidos ou presos. Perante tal infortúnio confirmam aquilo que já se sabia. A podridão do sistema, a corrupção generalizada, a imoralidade política que são a base mesma do funcionamento desta sociedade.

A corrupção na democracia ocidental, provocada pelo excesso de concentração de poder, tende paradoxalmente para uma ainda maior concentração de poder. O circuito fecha-se e a irresolubilidade do sistema também.

É na recolha dos impostos que o Estado democrático revela a sua faceta mais totalitária. De tal forma, que todas as questões actuais de cidadania, soberania e nacionalidade, derivam exclusivamente da possibilidade e capacidade dos Estados em forçar à participação financeira todos os habitantes do seu território. Com um argumento aparentemente decisivo. Através dos impostos procede-se a um igualitarismo possível, já que os mais ricos tenderão a financiar os custos de existência social dos mais pobres.
As sociedades modernas demonstram que tal não se passa assim. Por três ordens de razão.
Os dinheiros públicos servem numa larga percentagem para alimentar uma vasta burocracia que tem como fim precisamente a gestão desses mesmos dinheiros públicos.
É devido a essa enorme massa de dinheiro que o domínio do Estado se torna tão atractivo e justifica a manutenção de uma classe política, em larga medida inútil e corrupta.
O destino dos dinheiros públicos determinado pelo circuito infernal dos interesses, tende a ir parar de novo às mãos dos mais ricos e poderosos. Com a agravante de que os pobres não pagam directamente impostos, mas são despossuídos no próprio acto da remuneração.

O grande argumento que justifica a própria ideia dos impostos, só se cumpre numa escala ínfima. Na verdade, os pobres são no seu conjunto os maiores contribuintes e são quem menos usufrui desse mesmo contributo. Perante esta evidência, o discurso político desloca-se para o território do futuro. Prometendo em cada campanha eleitoral uma felicidade adiada e pedindo alguns sacrifícios sempre conjunturais, mas também sempre repetidos.
A ética dos impostos, tem por isso um carácter essencialmente ideológico. Assumindo aspectos de missionarização que tenta converter, primeiro a bem e logo depois pela força, todos os cidadãos para uma concepção de Estado total.

A frase que ornamentava a entrada do campo de concentração de Auschwitz, Arbeit Macht Frei (o trabalho gera a liberdade), não remete só para o cinismo criminoso dos nazis, dado o destino reservado a estes "trabalhadores". Refere explicitamente a própria concepção de trabalho, no tempo da sua apropriação pelo Estado e pelo capitalismo, e de onde se acha totalmente ausente toda a ideia de trabalho como auto-realização, para utilizar uma expressão de Marx.
O trabalho assalariado resulta num contributo de valorização do capital, numa prestação abstracta e não partilhada, mas acima de tudo ininterrupta. Nesse sentido pode afirmar-se que o trabalho gera a escravidão.

A crescente abstenção e o generalizado desinteresse pelo comércio político, derivam da incapacidade de se fazer passar continuamente por verdadeiro aquilo que é obviamente falso. A razão da política não é racional, é operacional. O homem-político mente com frequência para manter a verdade do Estado. A mentira fazendo parte da própria lógica da governação e do exercício do poder. Mas de tanto mentir, e apesar da organização sistemática de legitimação do falso, o político torna visível a contradição. O simulacro e o falso aparecem como factos. Pelo que toda a acção sobre a realidade é na verdade uma acção sobre a aparência.

O homem-político é na nossa sociedade o absolutamente outro. Aquele que não tem singularidade, nem pertença e que objectivamente favorece os mais poderosos na partilha dos mesmos interesses territoriais.
Entendendo-se a si mesmo como extraordinária máquina de gestão dos problemas, o homem-político não resolve nada. Esconde e adia.

A aceitação religiosa do mercado, na defesa intransigente do modelo liberal e no papel que se reserva à política, produz as situações de extremo despojamento humano e enorme desequilíbrio social que estão na origem dos fenómenos violentos e catastróficos. Na medida em que toda a política é uma tentativa desesperada de manter o status quo e não visa a mudança, todas as reformas passam invariavelmente por uma mais eficaz protecção dos ricos e remediados e uma ainda maior repressão sobre os pobres e excluídos.
A separação entre estes dois vastos agrupamentos, homens-correntes e homens-lixo, é cada vez maior e a brutalidade repressiva contra as revoltas e o crime dos despojados e dos excluídos, também.

Aquilo que os nossos governantes designam por Estado de direito, não é mais do que a legitimação de uma violência exercida em nome dos direitos absolutos do Estado. E sempre contra os mesmos, os despossuídos de tudo, a começar pela pertença humana.
Da mesma forma, a designação direitos do homem, reportando-se explicitamente a um homem-abstracto e nunca a homens-comuns, não tem qualquer sentido comunitário e reduz-se à retórica, normalmente cínica, dos discursos políticos pretensamente humanitarios.
A criação, manutenção e alargamento de espaços privados dentro do espaço colectivo, num mundo constituído por sujeitos abstractos, sob a direcção de uma elite clarividente, corresponde à ideia corrente de paz social. Trata-se de uma tarefa, essencialmente militar, de conquista, invasão e ocupação de territórios.
Hoje com uma particularidade. O território conquistado não está a aumentar, mas é cada mais circunscrito a ilhas e zonas "pacificadas" pela força.
Nas cidades e nos campos, vão-se multiplicando os espaços murados, com guardas dia e noite, rodeados por arame farpado, controlados por sofisticados mecanismos de vigilância.
Mostrando à evidência que a paz social é coisa que realmente não existe.

A especialização da gestão e a complexidade do mundo contemporâneo, criam uma sobrevalorização da capacidade de interpretação dos dados que deixa de lado a observação da realidade. O homem-político não conhece a sociedade, mas sim a sua versão mediatizada.
Os erros de análise sucedem-se e mesmo se o espectáculo consegue por momentos, inverter a verdade das coisas, elas regressam sempre. Com resultados cada vez mais devastadores, numa realidade crescentemente mais inexplicável e irremediável.
A política consome-se no discurso do momento, no conjuntural, agindo em resposta a realidades duvidosas e perenes, nunca agindo a partir de uma experiência dos eventos, mas tentando impedir que qualquer coisa se possa verdadeiramente conhecer.

A ligação entre políticos e interesse privado é evidente e chocante. Mesmo sem corrupção activa, a política tende a favorecer os mais poderosos. Não é por acaso que se utiliza a palavra lobby, vestíbulo, para designar a pressão exercida sobre os homens-políticos. Lobby é um lugar, onde os vários poderes se encontram, confraternizam e partilham informação. Um lugar de onde se acham excluídos todos os que não têm qualquer poder.

A política coloca-se no centro do exercício da autoridade e da violência, pensando-se como mediação entre o indivíduo e o social. Sendo o exercício do poder uma procura, não já da solução para os conflitos, mas sim do consenso possível.
Neste processo, o espaço da mediação entre indivíduo e sociedade, passa a ser ocupado simultaneamente por duas entidades. O capitalismo e a política. E neste contexto, quer se apresente sob a forma de identidade, quer de representação, a política nunca é mais do que o serviço do capital.

Depois de Chernobyl, catástrofe de dimensão histórica comparável ao desaparecimento de Pompeia, o desalento face à capacidade do homem para corrigir os seus erros, é total. A forma como se tentou travar a fusão, sacrificando homens munidos de sacos de cimento, demonstrou não só a profunda ignorância dos construtores das centrais, mas acima de tudo a pequenez do próprio homem face aos monstros que irresponsavelmente desperta. Por isso uma visão anti-humanista vai ganhando tantos adeptos.

Há no homem contemporâneo uma forte pulsão da morte. Um cansaço da vida, um esgotamento da civilização, provocado pelo fracasso da humanidade. Uma pulsão que faz com que se tema e simultaneamente deseje, a guerra nuclear, o holocausto global, a catástrofe ecológica terminal. A sua presença mais forte encontra-se em certos movimentos ecologistas, que entendem o extermínio do homem como única forma de salvar a natureza e nas seitas religiosas que proclamando o fim do mundo, todos pretendem arrastar numa mesma singular premonição.

Na impossibilidade de um percurso, tende a assinalar-se um fim. E o nosso tempo é tão fértil em términos. As palavras fim e pós exibem um notável grau de utilização linguística e conceptual nos dias que correm. Existindo todos nós nesse espaço que fica para além, suspensos no absolutamente nada. Como se a humanidade se tivesse esgotado às mãos de um sistema vitorioso, mas tão desinteressante ao ponto de nos retirar o simples prazer de continuar a existir e realizar.

Anunciada por Rimbaud no século passado quando em Harar, na Etiópia, se fazia chamar Abdou Rimbaud, numa crítica antecipada ao eurocentrismo, a decadência da Europa não tem parado de aumentar. Esgotou-se a capacidade de auto-regeneração. Do saque brutal das outras culturas ao neocolonialismo, é uma extensa história de incapacidades de pensar o novo e de apropriação da autenticidade dos outros que se desenrola. Por isso, a construção europeia significa também um último estertor. Quando a Europa se vê obrigada a canibalizar-se a si própria.

O irracionalismo da guerra contemporânea, em que a única estratégia reside na destruição de tudo e todos, conjuga-se com o carácter fascizante do próprio poder democrático. Onde apesar do processo representativo, quando os interesses supremos são postos em causa, o poder transitório depressa se revela um poder absoluto e o Estado de direito em Estado de excepção.
E que interesses são esses? Hoje, em todo o globo, resumem-se a um único. O das mercadorias e sua circulação obsessiva.

A guerra, vista através dos media, surge como inevitabilidade. Num alinhamento em que actos de extrema violência, aparecem ao lado dos terramotos, incêndios, inundações. A barbárie é apresentada como catástrofe natural.

Na II Guerra Mundial ainda havia um cenário, remetendo-se as atrocidades para a masmorra da Gestapo e para os campos de concentração. Depois, na Guerra do Vietnam o cenário das operações foi diluído na selva e sua selvajaria. O inimigo tornou-se global. Lutou-se nas margens do Mékong, mas também em Paris e nos campus americanos. Com a barbaridade a aumentar na dimensão proporcional ao alastramento do conflito.
Mas é no pós-Vietnam que a guerra perde definitivamente o seu conceito de cenário, para ganhar uma ideia primitiva, a de território.
Hoje, quem está dentro do terreno de guerra é amigo ou inimigo, é protegido ou alvejado, é salvo ou morto. Não há neutralidade, o civil é um soldado desarmado, isto é, vulnerável e que deve ser abatido a todo o custo.
O inimigo, que era o outro investido de um poder e de uma representação militar, é agora e tão só o outro.
O convencional, tornou-se formal.

As armas evoluíram no sentido da criação de distância. Da espada ao míssil, ganha-se a ausência do corpo do outro. Com a bomba atómica é possível eliminar uma civilização inteira sem nunca se ver um único rosto do inimigo. Este tão elevado nível de incorporidade, concede aos militares uma espécie de dispensa moral. E quanto menos se assiste ao sofrimento e aniquilamento da vítima, mais cruel se torna a guerra.
A conjugação da ideia territorial do espaço de guerra com a capacidade de ganhar distância entre disparo e morte, criam as condições conceptuais, técnicas e morais para uma destruição massiva de seres humanos.

Ainda que nesta era das aparências o futuro seja absolutamente imprevisível, já que os dados do presente, únicos a poder servir de base de análise, estão todos falsificados, é bem provável que no tempo das nossas vidas se assista a um conflito mundial de dimensão e mortandade sem precedentes.
Com o fim dos blocos e a universalização do capitalismo liberal, aquilo que era o interesse da parte, tornou-se o interesse da totalidade. Nunca como hoje o mundo foi tão uniforme e as vidas tão dependentes do único objectivo de realizar dinheiro. Essa urgência não se exprime só no desenraizamento e no desaparecimento das pertenças. A conquista dos mercados tem sempre um carácter destrutivo e militar.

Até à queda do muro de Berlim afirmava-se que os conflitos eram a quente erupção da guerra fria. Mas desde então, as guerras continuam a suceder-se por toda a parte, cada vez mais brutais e inconsequentes.
A arena de enfrentamento ideológico, tornou-se agora numa luta pela posse. De territórios, mercados, industrializações, explorações de recursos. Com os poderes fracos cada vez mais corruptos e os fortes crescentemente mais cínicos.
A guerra que era a continuação da política por outros meios, é hoje declaradamente a perseguição de objectivos económicos por todos os meios.
Nos rituais políticos existe um momento, que na forma de uma romagem solene e na deposição de um ramo de flores, define, melhor que tanta outra coisa a enorme hipocrisia sobre a qual se constrói o nosso mundo. Trata-se da visita oficial ao túmulo do soldado desconhecido.
Morrendo na maior de todas as solidões, precisamente porque irremediavelmente em vão, o soldado desconhecido é o exemplo maior da manipulação bruta do humano, em nome de qualquer coisa sempre conjuntural.
Espalhados pelos mais variados locais, objectos das mais sórdidas festividades, estes cadáveres incógnitos são o símbolo macabro da inconsequência das vidas às mãos dos sistemas políticos e económicos.

Actualmente decorrem no mundo várias dezenas de guerras. Quase todas justificadas por objectivos económicos ou que na sua origem apresentam reivindicações de natureza económica. Chiapas no México, Perú, Nigéria, Ruanda, Burundi, Sérvia, Bósnia e Croácia, Tchechénia, Cachemira, Tibete, Argélia, Irlanda do Norte, Sri-Lanka, Tajiquistão, Filipinas, Bangladesh, Afeganistão, Colombia, Gua-temala, Curdos no Iraque e na Túrquia, Israel, Líbano, Timor, Cambodja, Tailândia, Espanha, Birmânia, Azerbeijão, Líbia e Tchad, Egipto e Sudão, Yemen, Libéria, Somália, Arménia, Angola, Camarões e Chipre.
Mas se esta breve enumeração serve a visualização de uma globalidade em conflito, também por toda a parte se desenrolam sanguinárias guerras civis, sob a forma de criminalidade comum, sabotagens, agitação nas ruas.

Nos Estados Unidos, a descomunal violência gerada visa objectivamente o momento da implosão. Porque se trata de uma guerra sem tréguas, irreversível e irremediável. Só em Nova Iorque são registados quinhentos mil crimes por ano, afirmando a própria polícia que mais outro milhão não é declarado. A nova guerra civil americana é um facto e a sua origem económica evidente.

Nos distúrbios de Los Angeles em Abril de 1992, na sequência da absolvição dos polícias que espancaram Rodney King, o alvo preferido dos tumultos foram supermercados e lojas. E ainda que a rapina tenha tido lugar, os assaltos espontâneos visaram quase sempre a destruição pura e simples.
Esta sanha contra as catedrais de consumo não é de hoje.
Nos acontecimentos de Watts, também em Los Angeles no Verão de 1965, a pilhagem foi o aspecto menor da violência indiscriminada, dirigida contra as arquitecturas comerciais.

A quase ausência de líderes revolucionários, é o facto notável da Comuna de Paris e também da Guerra Civil de Espanha. Mas se nestes eventos, os principais objectivos dos tumultos ainda eram a tomada e destruição de Palácios e Igrejas, já nas revoltas contemporâneas se assiste a uma elevada dispersão das raivas contra os símbolos da opressão. Los Angeles não teve líderes, ideologias ou movimentos organizados, sendo que os objectivos estratégicos passaram ao lado dos edifícios do Estado, para se concentrarem nas edificações do espectáculo mercantil.
Eis como praticamente do nada, da exclusão e da marginalização, nasce uma inesperada e singular consciência social. Que vê na razão económica a origem do próprio mal.

Incapaz de controlar a própria violência que gera, o sistema capitalista vai criando prisões, campos de concentração, esquadrões da morte, extermínios. E nunca como hoje as prisões estiveram tão cheias e a insegurança pública foi tão elevada.
Uma guerra civil, à escala planetária está em curso. Umas vezes pelas boas, outras pelas más razões. Mas em qualquer dos casos expondo a inconsequência de uma civilização exclusivamente vocacionada para o lucro, à custa do maior desprezo pelo humano.

Para a política, o maior problema da violência urbana, não é a sua origem, nem o seu efeito objectivo, mas a desautorização do próprio Estado. Já que o monopólio da violência lhe pertence por inteiro. Na presunção inquestionada de que a violência do Estado é boa e toda a restante má.

Nas democracias assistimos à glorificação das figuras solitárias do poder, ao arrepio de tudo aquilo que se inscreve no próprio projecto democrático. Os Estados modernos vivem agora de homens providência, na crescente concentração de poderes individualizados e numa limitação radical da participação pública.
Incapazes de uma partilha do espaço comum, os homens de Estado assumem a administração do capitalismo, como se de uma abnegada e humanitária missão se tratasse. Declaram-se disponíveis para o sacrifício, assumem frequentemente a postura dos santos. Mas na verdade, são meros gestores do mal, quinta coluna das multinacionais, contra todos, a começar por aqueles que dizem representar. Criam a infelicidade pública, mas que se saiba também raramente conquistam a vida feliz para si mesmos.

A tão utilizada designação de Estado de direito, contem em si mesma uma contradição insuperável. Nenhum direito universal é possível no contexto de um Estado, pois este representa precisamente uma suspensão do direito em nome da ordem social imposta.
A designação visa a legitimação teórica da própria violência do Estado sobre alguém, muitos ou todos e particularmente sempre que existindo uma disputa, deva prevalecer o direito do mais forte. O próprio Estado, o capitalismo, a política.

Alguns, por acidente ou convicção, vão tendo a extrema felicidade de atravessar a existência sem deixar qualquer rasto. E isto, porque o que vai sendo registado, pelos media e em avulsas declarações de intenção, se resume a um generalizado consenso ideológico. Nuns casos por assumida anuência, noutros por forçada e brutal renúncia à dignidade. O nosso quotidiano não parecendo ser habitado senão por convictos agentes da ordem estabelecida ou por prevaricadores arrependidos.
Mas na verdade, não pára de crescer o número dos inexistentes. Aqueles cujo rosto nunca figura nos telejornais senão como sinónimo de uma tragédia humana. Sombras, não da noite como nos filmes, mas dos quotidianos.
Transparências, devido à aceitação de que só a iluminação espectacular e a submissão representativa podem construir o ser. Numa lógica simplista. Quem aparece nos media existe e quem não aparece é uma pura ilusão.
Cria-se assim, por natureza destes efeitos mundanos, uma reinversão da realidade. Que por se revelar obviamente falsa, dificilmente condiz com os eventos. Aquilo que de facto acontece na sociedade contemporânea não é passível de revelação mediática e os media não falam de factos, mas sim de ilusões. Pelo que toda a tentativa de resolver o real esbarra com uma contradição de fundo.
O que se pretende resolver nunca tem solução, porque não é o problema.


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