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Os homens-lixo
Leonel Moura
Edições Fenda - Lisboa (texto integral)
Parte 3

Três adolescentes atiram-se de uma ponte,
à vista de um carro da polícia que se preparava
para tomar conta da ocorrência.



Vão faltando os amigos ou conhecidos, cuja conversação nos surpreenda com algo de inteligente e excitante, enquanto, como que por destino, dia após dia damos com caras que conhecemos umas melhores que outras, fazendo os papéis mais deploráveis. Uns pelo dinheiro, outros pelas más companhias.
É certo que vivemos numa época em que se exige tudo. A vida, a aparência, a submissão. Quem pretenda sobreviver, deve fazer todas as cedências e colaborar nas mais mesquinhas operações. Mas custa aceitar que sejam tão poucos aqueles que alimentam o desejo de uma ruptura e que no meio do turbilhão das fantasias quotidianas, não vão dando sinal do desconforto.
A simples existência humana nunca foi fácil. Determinada por enquadramentos do poder moral, ideológico e económico, teve muitas das vezes e particularmente sempre que a lucidez atacou, de se construir na base dos mais elaborados estratagemas para escapar à tenebrosa ordem das coisas.
Hoje não é diferente.
Só a denúncia pode ainda resgatar uma condição humana.

Um músico a quem perguntaram porque não fazia novas canções, respondeu que as podia fazer, mas para dizer o quê?
Ao contrário de tantos, e são quase todos, que não esperam a mais fugaz oportunidade para vender uma ideia banal, um projecto desinteressante, uma parvoíce qualquer, este músico afirmou o enorme deserto de que se faz o nosso mundo. Não por falta de coisas para dizer ou fazer, mas porque olhando à volta e conhecendo os protagonistas, qualquer pessoa lúcida percebe que não existem nem ouvintes, nem interessados.

Na aceitação das regras do capitalismo triunfal que nos governa, nada mais parece possível do que ser lacaio de uma ordem deplorável. Suicidados por opção, não por razão, arrastamo-nos pelas ruas plenas de despojos, humanos e outros, na crença de que não existe alternativa e que é próprio dos tempos a anuência radical. Nunca se viu tanta corrupção, tanta imoralidade pública, tanto crime legalizado, mas nós, sempre prontos a esquecer, queremos acreditar que talvez não seja bem assim, que ainda existe humanidade no planeta e que, mais dia menos dia, se assistirá a um triunfal esclarecimento. Em vão.

Nos tempos que correm ninguém parece interessado em pensar um mundo novo, tudo se limitando ao reformismo de questões parcelares, onde nunca se questiona a concepção global da sociedade contemporânea. Já Barthes afirmava que o fascismo não consiste em impedir de dizer, mas em obrigar a dizer. E hoje somos invadidos por um discurso verdadeiramente fascista, que dá pelo nome de consenso ideológico, que nos obriga a falar dentro do quadro restrito do liberalismo económico.
Fora dele nada parece existir.

Ignorando essa verdade objectiva que anuncia a condenação de todos e cada um de nós ao desaparecimento, consumimos a existência em vidas sem qualquer sentido nem grandeza.
Dir-se-á que tal é próprio da natureza humana e que todas as épocas se revelaram igualmente frustrantes. Mas este argumento não nos conforta. Se é certo que a história assinala mais episódios negros que brilhantes, não é menos verdade, que nela a insatisfação, a denúncia e a revolta são permanentes. E que em todas as circunstâncias, mesmos nas de maior contrariedade, a vida se fez mais da expressão do desacordo do que da submissão.
Vivemos o tempo absurdo de uma anuência totalitária. Ao nível do quotidiano, mas também nesta incapacidade tão generalizada de pensar alternativas.
A história da miséria da sociedade contemporânea, não é mais do que a história do sistema capitalista no seu momento triunfante e global. A organização de todos os aspectos da vida corrente, a ocupação de todos os espaços e instantes, o impedimento de que qualquer verdadeiro acontecimento possa ter lugar, definem um modelo de sociedade que condiciona o humano a uma repetição exaustiva de gestos, tantos deles os mais inúteis e desprovidos de qualquer objectivo.
Num tempo inteiramente mediatizado, resultando num estado de permanente suspensão, perdemos o prazer e os ensinamentos do passado e não temos já um sentimento de responsabilidade para com o futuro. Por isso, aquilo que é apresentado como fantásticas novidades, não passa ainda de elaboradas repetições, plágios, falsificações de todos os géneros e para vários fins. Sistema de modas, repetitivo na ilusão de uma incessante renovação, tudo se apresenta afinal demasiado igual a si mesmo. Circo de criatividades e de elogio público dos criadores, a nossa era raramente cria algo que não tenha sido já realizado, com outra oportunidade e rigor.

A vida contemporânea caracteriza-se por uma pura perda de tempo. Bastando olhar para o desenrolar dos eventos para se perceber a fabulosa trivialização dos gestos. Nem sequer a paz de uma existência é já possível. Porque os tempos nunca foram tão conturbados como os de hoje e o pavor, de tudo e nada, tão enraizado.
Para lá dos discursos e do ilusionismo, a miséria é ainda a paisagem dominante no mundo. As cidades encontram-se repletas de gente sem o mínimo de condições de existência. Dorme-se na rua, em barracas, em ruínas. Mendiga-se. Come-se na sopa dos pobres e nos caixotes de lixo. No campo vegeta-se num estado de primitivismo medieval. Populações envelhecidas, arrastam o desespero por aldeias sem condições, nem destino. Tudo o que era natural, desapareceu ou foi remetido para museus e estâncias turísticas. Da vida simples já nada existe.

A própria televisão, no seu súbito populismo, revela-se hoje uma experiência sociológica incontornável. Pelos seus écrans passam diariamente personagens desdentados, sujos, que mal sabem falar quanto mais comportar-se, como que saídos do neo-realismo sórdido do feios, porcos e maus. Gente que não tem nenhuma oportunidade na vida, que existe num total abandono e desinteresse comunitário, a quem um dia são dados 15 segundos de protagonismo mediático, para declarar, em natural estado de histeria, uma miséria fotogénica.
São vidas que se perdem para a vida. E não se ganham para coisa alguma. Porque nos rígidos ditames económicos que hoje tudo determinam, não há lugar para as existências simples e felizes.

Aquilo que eram realidades da vida, são agora planos estratégicos, rentabilidades urgentes, pragmatismos incontornáveis. Numa competição, cada vez mais acelerada, mas sem que se perceba quais as metas e os destinos.
Impossibilitados de existir nos mercados globais, as populações humildes, das cidades e dos campos, transformam-se em obstáculos do progresso. Seres desprezíveis que impedem o sucesso e mancham as estatísticas. Estão lá, a cada esquina, sempre irritantemente prontos a conspurcar a retórica política e a celebração mediática.
São os miseráveis, os vagabundos, os desalojados, os drogados, os mal sãos, os delinquentes, toda essa crescente multidão de inadaptados às exigentes condições da vida produtiva.

Um escultor, certamente afectado pelo brilho das essências, afirmou em entrevista mediática que perante a beleza de certas obras de arte, a desgraça humana lhe parecia irrelevante.
Mas perante esta, sua qualidade económica e seu alcance territorial, não há beleza que chegue para iludir o trágico destino individual e colectivo.
O extremo despojamento social a que se assiste por toda a parte, não é um assunto limitado a contextos ou situações. Não é sequer, como se ouve dizer, um custo do progresso.
Vai-se tornando condição corrente, no desenvolvimento cada vez mais generalizado e irremediável, de formas de existência donde desapareceu o último resíduo da qualidade humana.
Um incomensurável império de homens-lixo eis no que se tornou a sociedade do capitalismo celestial.

E nunca como hoje a miséria foi tão miserável. Pela extensão. Cerca de um quarto da população mundial vive na mais absoluta pobreza. Numa geografia da fome que afecta particularmente os países sem recursos, mas que não está ausente dos ricos. Quarenta por cento das crianças de Nova Iorque não têm as mínimas condições de subsistência. As disparidades são chocantes, num fosso que se define brilhantemente nas estatísticas, mas cuja realidade não pode ser feita experiência por ninguém, a não ser pelos próprios.
A miséria não é uma condição humana, representa agora uma expulsão da humanidade.

A pobreza que afecta o mundo do capitalismo, não é só da ordem da quantidade. Tem antes de mais um carácter qualitativo.
Expulsas da vida rural, populações inteiras habitam as lixeiras que decoram as periferias de todas as cidades do planeta. Partilhando os espaços, não com outros humanos, numa condição política e social digna, mas com os esgotos, os dejectos da sociedade industrial e de consumo rápido, numa promiscuidade epidémica, abjecta e sub-humana.
Infecção populacional que alastra às vidas e ao ambiente, para a qual não existe qualquer solução no contexto de uma competitividade global que se entende como saque à escala planetária, de recursos, culturas e singularidades. Onde o desastre é a única meta garantida.

Se os campos são hoje o deserto, as cidades são a ruína. Nas renovações urbanas das últimas décadas, motivadas tanto pelos ensinamentos de controlo das multidões das polícias científicas, quanto pelos investimentos imobiliários na área dos serviços e do comércio, descaracterizaram-se os bairros populares e o sentido de comunidade dos seus habitantes. Criando-se vastos redutos de solidão e desolação. Não existe aliás melhor palavra para descrever a vida nos centros das urbes modernas. A ausência de convívio, a repressão da partilha, o não reconhecimento de qualquer forma de pertença, transformaram a cidade num espaço físico sem alma. Desolador.

Com o urbanismo, traça-se o concentracionário. Que nas grandes cidades assume um contraditório movimento de extradição e integração. Na ausência de liberdade e na presença dessa tendência pseudo-democratizante de administrar etnias e culturas, numa mesma intromissão inconsequente e inaceitável na vida de todos, cria-se simultaneamente o gueto e a partilha forçada. Cujos resultados estão aliás à vista. As cidades são o grande palco das concepções centralizadoras e discriminadoras do pensamento ocidental. Onde o indivíduo é manipulado e a cultura militarizada. Num objectivo assumido de criar espaços dentro de espaços e assinalar de forma bem visível a separação social.
Entre o bairro chique e a zona de barracas, não se estabelece só uma diferenciação económica e abstracta, desenrola-se também uma fronteira física, patrulhada e de acessos reservados. A cidade como lugar de todos os encontros e a maior liberdade, já não existe.

O mundo da cultura reconhece a falência da sociedade actual, mas recusa sujar as mãos. Preferindo mergulhar no terreno das essências, onde se sente ilibada de culpa e onde imagina uma projecção no futuro. Um enorme pretenciosismo, super-moralista e que glorifica o indivíduo contra a sociedade, define a tendência maioritária na cultura do Ocidente. As consequências estão à vista.
Os políticos manipulam a cultura. A cultura resigna-se ao sucesso conjuntural e espectacular.

Palavras como poética, essência, sublime povoam hoje os textos do discurso cultural na vontade declarada de impedir o reconhecimento das realidades sociais.
No pensamento, o Pós-moderno foi transformado num decorativismo de raiz niilista, perdendo-se por completo a promessa Lyotardiana de um aprofundamento do conhecimento. E entretanto apareceu esse conceito tão celebrado da fraqueza. A apologia de um pensamento fraco e de uma cultura fraca, não pode deixar de nos fazer pensar no forte irracionalismo do presente, com homens políticos carismáticos a surgirem como cogumelos e uma extrema-direita declaradamente fascista a renascer em toda a sua força negra.

Totalmente ocupada pelo discurso político e económico, a cultura identifica-se hoje com o anti-intelectualismo. Numa forte tendência para criar objectos absurdos, estranhos, kitsch, onde reina a superficialidade e o conjuntural.
A cultura contemporânea e o espectáculo são uma e a mesma coisa.

A integração racial, o recrutamento das minorias e a recuperação do outro, na aparente inocência de uma visão holística da sociedade, ilustram o compêndio das polícias. Têm um carácter repressivo, de aniquilamento das diferenças e das atitudes. A própria exclusão pretende confirmar o sistema. Aqueles que se marginalizam ou são expulsos da ordem económica, continuam visíveis e servem de exemplo para todos os outros. Numa chantagem óbvia. Quem se porta mal é excluído e o excluído é aquele que não se portou bem.

Na política e na cultura, o reconhecimento do centro deriva da vontade de recuperar a margem. Sempre encontrei o essencial da minha inspiração nos cultos periféricos ou nas margens da história. Os grandes centros urbanos estão cristalizados. Aí as pessoas ainda pensam que o mármore é melhor que o plástico! afirma com o cinismo próprio da visão pós-modernista o designer Ettore Sottsass.
A cultura, particularmente na sua versão Pós-moderna, entendeu-se como partilha global. Esquecendo-se que nenhuma cultura é verdadeiramente compreensível sem a experiência da linguagem que a constitui. O apropriacionismo e o nomadismo cultural, são por isso exercícios de superficialidade, que nada reconhecem no verdadeiro, mas que muito contribuem para o desvirtuar.

Nos anos 70, certos grupos políticos extremistas, como os Baader-Meinhof na Alemanha, justificaram as suas acções terroristas como forma de contribuir para a libertação dos povos do terceiro-mundo. No entendimento correcto de que o problema é um só por toda a parte.
Aquilo que impomos aos outros é aquilo que o capitalismo nos impõe a nós mesmos. Daí o profundo mal estar que se vem instalando na própria sociedade ocidental, origem do estilo de vida global.
O homem branco já não tem verdadeira cultura, nem língua. Nem laços, nem partilha. Não tem segredos, vestígios de uma existência singular. O seu universo é um palco de exposição permanente, de revelação pública das intimidades, de promiscuidade. Onde se está sempre nu, ainda que sobrecarregado de objectos, futilidades, próteses sem função.
Não se reconhece os próprios vizinhos, habita-se a solidão das urbes imensas. Perde-se as noites em bares repletos de desconhecidos, onde toda a descoberta se limita ao encontro fortuito, inconsequente, que deixa sempre um amargo nalguma parte do corpo. Já quase não temos amigos e deixámos de escrever cartas.

A banalização do saber faz a delícia dos diletantes, que tanto divagam sobre religiões, usos e costumes de povos e linguagens que profundamente desconhecem, como sobre o começo do universo ou as aventuras de ínfimas e invisíveis partículas.
A divulgação científica, técnica de obtenção de fundos pelos cientistas, é hoje a instrução pública de uma imbecilidade perfomativa.

Na unidade planetária, surgiu com toda a violência a complexidade global. A realidade parece absolutamente incompreensível e apesar da veloz e generalizada circulação da informação, o território do não-saber não tem parado de se expandir. Os maiores pavores do cidadão europeu foram assim descritos em recente inquérito: periferias urbanas, asiáticos, imigrantes, terrorismo, neo-nazis, sida, manipulação genética, islamismo, catástrofes ecológicas. Tudo coisas que se definem no desconhecimento.
Era no apelo à racionalidade que se deveria esperar a resposta ao não-saber. Mas ao invés, políticos e intelectuais, têm derivado ainda mais para o irracionalismo. O descrédito do sistema político dá lugar ao aparecimento de movimentos messiânicos. Critica-se o absurdo com mais absurdo, a equivalência de todos os eventos com mais irrelevância. Fala-se do novo, para significar o retrocesso.
No campo do pensamento, o cinismo entendido como um hedonismo, tem celebrado a própria incapacidade de pensar. Confunde-se a impossibilidade de dar uma grande solução para o mundo, com a aceitação das coisas tal qual elas se apresentam.
Na reflexão sobre a contaminação da linguagem, muito do pensamento contemporâneo, perde-se com frequência no novelo do sentido, não se aplicando, à maneira de Marx, directamente na crítica e na mudança. Por isso vai-se consumindo o tempo em falsos debates e falsas incontornabilidades, numa actividade que transforma a crítica, a negatividade e a racionalidade, em doença benigna do próprio capitalismo.

Com a economia no comando da sociedade, da cultura, da política e de todos os momentos da nossa existência, tudo deve submeter-se à mais vasta circulação mercantil e a uma lógica implacável de rentabilidade. Certas coisas que sempre foram tidas por necessárias e próprias do destino humano, são hoje atiradas para a sombra e perseguidas.
Neste tempo, em que a quantidade domina e a qualidade se tornou incómoda, a inteligência é vista como uma coisa negativa. A tal ponto que o epíteto de intelectual se tornou um insulto e a estupidez é agora um valor positivo.

Vista na perspectiva dos eventos, a sociedade contemporânea, vai demonstrando uma crescente dificuldade em explicar a realidade. O inexplicável não pára de crescer. São os actos sem destino, as intrigas que não se sabe bem de onde partiram, as falsas revelações e as revelações falsificadas, em tramas demasiado próximas de guiões medíocres, até porque mal desenhadas e plenas de embaraços.
Mas o inexplicável atinge igualmente o universo da razão. Pois talvez nunca como hoje a intelectualidade, os filósofos e os analistas de todas as coisas e sobre todos os prismas, se mostram tão confusos e tão incompetentes para afirmar uma única coisa simples e directa.

Feito de múltiplas ciências, do que resta das antigas e de uma enorme variedade de novos e tantas vezes inúteis conhecimentos, o saber contemporâneo revela-se incapaz de explicar o que quer que seja.
Uns meses afirma-se que o café faz mal, para meses depois vir a público um relatório com as suas extraordinárias propriedades. E isto tão só, porque os produtores de chá pretenderam ampliar o seu mercado, a que se seguiu a resposta dos comerciantes internacionais de café. Em qualquer dos casos não tendo sido efectuado nenhum estudo sério, mas tão só encomendas a laboratórios vendedores de serviços, onde um vasto conjunto de pseudo-cientistas trabalha com o único propósito de inventar argumentos para o cliente e onde ninguém se interessa pela saúde pública.
Estes processos, comuns a praticamente todos os sectores da actividade humana, definem um modelo de conhecimento. São dados científicos tudo o que tem interesse comercial para alguém e meras especulações o que pode ser prejudicial para as pessoas, os animais e o planeta. Sendo que a complexidade do discurso científico actual, tem menos a ver com a natureza intrínseca das coisas, mas com a dificuldade de falar destas, omitindo ao mesmo tempo o que verdadeiramente está em causa.
A ciência, nascida da busca interminável da verdade, é hoje um vasto palco de manipulação e mentira.

Querendo explicar o inexplicável a sociedade mune-se de batalhões de especialistas. A cada novo evento surpreendente logo surgem psiquiatras, cientistas, sociólogos, não tanto para revelar a verdade, mas essencialmente para pacificar as ansiedades públicas.
Estes especialistas raramente sabem alguma coisa ou produzem informação útil, navegando sobre os acontecimentos com a acrescida ignorância de quem se julga detentor de algum saber e afinal nada entende do real. É numa simples presença que a tarefa se cumpre. Mas dado que o simples facto de colocar na mão dos especialistas qualquer assunto, significa desde logo a perturbação irremediável da verdade, ninguém em consciência acredita nos seus pseudo-esclarecimentos.

O saber, fundação de qualquer comunidade, assiste a um acelerado processo de desvalorização, determinado pela implacável rentabilidade económica. A sabedoria vai assim sendo substituída por uma tecnologia, onde não há mais espaço para o humano.

O anti-intelectualismo da nossa época, expresso na sobrevalorização de tudo o que é superficial e conjuntural, empurra a humanidade para uma nova condição primitiva. Um momento em que apesar de nos encontrarmos rodeados da maior tecnologia e capacidade comunicacional, vivemos despojados de sentido para a vida e já sem qualquer valor, ético ou intelectual.

Ouve-se hoje com frequência, em declarações de índole diversa, falar da legalidade como princípio geral de conduta. Numa adopção da própria letra da lei como baliza dos comportamentos. Assim, certos actos objectivamente imorais justificam-se por não haver nada na lei que os condene.
Ora a ética não se define através de textos, regras ou modelos, mas pela natureza mesma dos relacionamentos humanos no seu espaço comum.
Perderam-se assim certas noções essenciais do comportamento, como sejam a honestidade, a dignidade e a verdade. Quando a condução dos negócios, privados e públicos, o exigem, poderá adoptar-se em "consciência" e sem qualquer pudor, a desonestidade, a indignidade e a falsidade, desde, claro está, que na letra da lei nada conste que o impeça.
A noção contemporânea de homem de bem, significa não um homem com um elevado sentido de comportamento ético, mas aquele que mediante todos os expedientes, dos mais triviais aos mais indecentes, se vai conquistando uma reputação. Até porque perante a actual configuração do sucesso, mundano, profissional ou político, poucos escapam a uma multiplicidade de actos desonestos, enganadores e aviltantes.

O cinismo, esse recurso intelectual que permite ficar de bem com a consciência mesmo sabendo que se cometem os maiores desvarios, imagina que nem tudo fica registado na história dos eventos. Permitindo assim uma legitimição imoral acrescida. No entanto, nada, mesmo nada, fica definitivamente perdido. Uma vezes as coisas revelam-se na sua condição irremediável, outras quando vão deixando rasto aparente, quer na ordem dos eventos, quer naqueles que os produzem. Neste sentido, a morte de uma andorinha pode mesmo significar o fim da Primavera.
Daí que os relatos, por mais insignificantes que pareçam, sejam tão importantes.

A palavra economia vem adquirindo nos últimos anos uma espessura quase mágica. A humanidade, no tempo da sua qualidade económica, não passa agora de uma enorme máquina produtiva e consumista, num ciclo que nunca se fecha, nem esgota.
Feita saber, a economia torna-se frequentemente num daqueles jogos, em que a necessidade e o mau perder, obrigasse a refazer permanentemente as regras. Pois nunca se viu uma "ciência" falhar tanto as suas previsões, resultando, nesse fracasso, em tanta miséria humana. A economia, que se podia definir como uma arte que regula o interesse capitalista, não assegura nenhuma legitimidade conceptual, nem deriva como se pretende, de uma necessidade ontológica. Trata-se tão só de uma concepção social, entre tantas possíveis, cuja natureza simultaneamente frágil e febril, conduz a um feroz e sanguinário totalitarismo.

Nas variáveis da economia mistura-se tudo. Dinheiro e homens, lucro e vida. A macroeconomia, a inflacção, o desemprego, o crescimento, são algumas palavras que significando coisas concretas e afectando a vida de milhões de seres humanos, dão lugar a belos gráficos cuja dimensão estética esconde uma descomunal carência. Apesar das conquistas no domínio científico e tecnológico, do enorme desenvolvimento da produtividade quantitativa e da vastíssima rede organizativa e burocrática que tudo controla por todos os cantos do globo, enormes massas populacionais são atingidas pela mais extrema miséria, ao ponto de se morrer de fome em todas as latitudes, numa ininterrupta catástrofe humana.

A economia é uma arte, mas uma arte militar. De conquista, extermínio e subjugação. Mas é também um processo, quase químico, de diluição de todos os valores e da própria razão. Nada subsiste à sede de lucro. Do ritual religioso à criação estética, da efabulação à racionalização, tudo deve submeter-se a uma lógica de rentabilidade que não reconhece outra validade para as coisas, do que a sua capacidade de gerar benefícios financeiros imediatos. Da Rainha de Inglaterra ao mineiro, do Papa ao professor, do poeta ao sábio, todos se vergam ao poder absoluto do dinheiro. Pensamento, amor, silêncio, tudo se vende e se compra numa sociedade em que todos os objectos, corpos, desejos, instantes, trazem colados uma etiqueta com o respectivo preço.
Uma dependência doentia, que só se cura na revolta, na loucura ou no suicídio.

A economia, sendo a representação maior do modo de vida imposto pelo capitalismo espectacular, define as condições e os limites da existência humana. Agora tudo se resume à produtividade e ao consumo, numa sucessão sem fim de momentos premeditados nas grandes sedes empresariais. O desejo é manipulado, a deriva condicionada na pequena subversão criativa, permitida e rentabilizada.
Um dos maiores negócios do nosso tempo é a prostituição e seus sub-produtos. Actividade permitida e estimulada por todos os governos democráticos do planeta. O outro continua a ser a guerra, cada vez mais mediatizada e pronta a consumir como espectáculo excitante à hora do jantar.
Quando se diz que o económico domina absolutamente sobre a vida, não se diz que existe uma condição económica nas sociedades que afecta a vida quotidiana, mas sim que não resta já qualquer resíduo do vivido fora do objectivo económico.

O apelo obsessivo dos objectos de consumo criou necessidades ardentes, mas absolutamente irrealizáveis. O destinatário dos objectos de consumo é o desejo, mas a sua enorme reprodutibilidade provoca uma insatisfação e angústia sem cura. Na lógica do consumismo, a ausência de um objecto nunca é compensada pela sua presença. O consumismo vive de uma falta, profunda e permanente. Por isso a realização humana não se completa na posse de objectos, nem sequer na sua exibição pública. A acumulação exige sempre mais, até um ponto de entropia e colapso.

A palavra economia perdeu o seu significado etimológico, oikonomia, administração da casa, para ganhar a dimensão de uma ideologia global. Neste processo o capitalismo teve um aliado de peso, o próprio marxismo, o qual numa teoria geral da história da humanidade feita saga pela sobrevivência, serviu de suporte legitimador do facto económico como razão e destino de toda a existência humana.
Para Marx, a mecânica do processo histórico, definiu-se na actividade produtiva de indivíduos socializados e cooperantes. Deixando de lado todos os outros aspectos e muito particularmente a identidade do próprio consigo mesmo.
Ora, mesmo a oikonomia, não corresponde senão a uma ínfima preocupação da vida vivida. A crítica do marxismo, tanto quanto a do capitalismo, não pode deixar de visar a inversão radical do domínio do económico sobre o vivido.

O sistema capitalista, não corresponde só a uma determinada estruturação económica. É entendido em si mesmo como socialização. Por isso surge como uma existência primeira, fundadora na sua natureza irrefutável.
A mediação, isto é, a passagem do indivíduo para o social é realizado pela mecânica própria do capitalismo. Reduzindo ao económico aquilo que é na verdade da ordem do espaço comum.
A regulação dos conflitos, que exprime sempre essa razão primeira do capital, é a actividade política propriamente dita, na demonstração de uma autoridade e na expressão de uma violência social ininterrupta.
A autoridade do Estado é sagrada, porque só esta permite que nunca se ponha em causa a razão capitalista, isto é, o fundamento da nossa sociedade.
Combater essa razão é promover o caos.


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