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Os homens-lixo
Leonel Moura
Edições Fenda - Lisboa (texto integral)
Parte 2
Acredita-se em tudo, mas simultaneamente,
sabe-se que nada é verdadeiro. Esta equivalência entre mentira e verdade, produz uma
forma de resignação que relativiza a participação política. As pessoas ainda votam,
mas declarando em simultâneo a inutilidade prática desse acto cívico. Cumpre-se o
ritual, mas não se acredita já no milagre.
Na verdade, a participação política contemporânea, activa e convicta, encontra-se
reduzida ao núcleo restrito daqueles mesmos que competem directamente pelo poder.
Aceita-se a mentira por uma questão de sobrevivência. Num fenómeno que abre caminho
para a maior
desumanidade. Entre uma experiência vivida e o seu relato mediatizado, acredita-se neste,
mesmo se as incongruências desvirtuam totalmente a factualidade dos eventos. O real
mediatizado é hoje mais credível que o próprio real. E isto transforma o homem
verdadeiro, num objecto sem sentido.
A mediatização opera um corte entre o real e a ficção, revalorizando esta e não
permitindo a partilha de um espaço de comunicação.
Aquilo que era conhecido por senso comum, isto é, relativização da excepção por
valorização da experiência, foi agora substituído por uma insensatez, que precisamente
desvaloriza tudo o que é vivido e experimentado, para dar lugar soberano às imagens, ao
espectáculo, ao falso.
No espectáculo tudo o que se vê é mentira. Mas esta verdade simples conduz à
declaração de falsidade de tudo o que é verdadeiro. E isto na medida em que o
espectáculo não funciona sem uma extrema coerência. No momento em que se põe em causa
a parte, o todo desmorona-se. Não é, por exemplo, possível seguir a trama de um filme
se não acreditamos na mentira que ele mesmo constitui. A credibilidade de uma história
filmada depende totalmente da nossa disposição em esquecer a verdade.
Da mesma forma, o espectáculo político e mercantil, não é possível sem uma suspensão
do senso comum. Mas com ela, e porque está em causa a essência do nosso ser social,
perde-se todo e qualquer sentido da ética.
Nas últimas décadas e em particular no tempo que se segue à queda do muro de Berlim,
assistimos ao
alastramento de uma ausência total e generalizada de moralidade pública e privada. Onde
a conduta foi
substituída pela imagem e a ética pelo interesse.
Sabemos como em Sade a pornografia tem um carácter literário. Na descrição dos actos,
das combinações e das abominações, Sade concede à escrita a centralidade das visões
sexuais e seu fundamento crítico. Nele as palavras valem mil imagens, porque aprofundam
conteúdos que a superficialidade retiniana não permite.
Um exemplo maior. Quando Sade fala de um Papa que sodomiza a filha casada, consegue com
meia dúzia de vocábulos uma enormidade de efeitos chocantes que nenhuma fotografia, não
legendada, alguma vez alcançaria. Crítica social e religiosa, incesto, sodomia e
adultério concentram-se num único acto, por simples dom da letra. Hoje as notícias
descrevem este processo. Na criminalidade corrente, nos actos tresloucados, nas
catástrofes avulsas, são muitas vezes as quantidades ou os detalhes escabrosos que ainda
suscitam curiosidade. Nos serial killers vai interessando o número das vítimas, a forma
como se mata, o requinte na malvadez, numa competição perto dos feitos olímpicos.
A brutalidade corrente e quotidiana já não perturba. Porque a medida das coisas
tenebrosas se revê nos jogos de linguagem
E tal como na escrita de Sade, o acontecido torna-se uma pura abstracção.
Depois do movimento feminista no pós-guerra, cuja acção em defesa da dignidade das
mulheres, quer no Ocidente, quer por todo o mundo é histórica e notável, assistimos
nestes últimos anos a um retrocesso. A glorificação do corpo volta a reduzir-se à
mulher objecto, numa total dependência do ponto de vista masculino, mas acima de tudo,
nessa trivialização do próprio acto sexual, cada vez mais genitalizado. Não é por
acaso, que a prática do fellatio, forma rápida e eficaz de provocar o orgasmo masculino,
se banalizou ao ponto de constituir hoje a acção sexual mais disseminada, muito
particularmente nos encontros fortuitos e na prostituição.
O retorno à reificação da mulher, não representando só um atraso no relacionamento
homem/mulher, já que é evidente que uma tal situação também prejudica a
"libertação" do próprio homem, implica mais profundamente a consagração da
indignidade humana. O corpo das mulheres é de novo exaustiva e doentiamente explorado na
publicidade, na moda, no mundo empresarial e no relacionamento social. Verdadeira carne
para canhão de campanhas sem escrúpulos, nem decência, onde se confunde erotismo com
promiscuidade e desejo com perversão.
Nesta redução da mulher a uma mera fisicidade, perde-se humanidade. Depressa o objecto
de consumo apetecível se transforma num lixo inapresentável.
A sorte das velhas prostitutas, é tão só a face mais visível de um destino corrente de
todas mulheres em tempo da sua condição material.
Quando se diz que alguém "caiu" na prostituição, afirma-se precisamente esse
instante abrupto de passagem para um espaço, não-humano e não-partilhado. Na imagem
perfeita de um fosso, dentro do qual se anima a exclusão.
Os maus tratos, a tortura e o assassínio das prostitutas e prostitutos, é visto com
alguma condescendência. Afinal trata-se de seres que não são inteiramente humanos, que
não pertencem ao espaço social e com o qual todo o relacionamento é meramente
funcional. Servem de breve e veloz depósito de orgasmos, verdadeiros contentores da
necessidade urgente.
Nunca existiu tanta prostituição. Porque sobre uma condição, se impôs uma economia.
Fonte de lucros, a prostituição é promovida por todas as autoridades do globo. Sendo
considerada uma das grandes actividades económicas do planeta. Espécie cinegética para
os países pobres, questão pragmática para as democracias ocidentalizadas, a
prostituição é o destino cruel do desenraizamento cultural e da globalização
capitalista. Transformando o centro das maiores cidades do mundo noutro tipo de lixeiras
humanas. Aquelas em que o prazer transitório de uns tantos, se dá com o continuado e
extremo sofrimento de muitos outros. A extensão da prostituição no capitalismo global,
tem a sua equivalência na dimensão da perda dessa qualidade única do humano: a
dignidade.
A prostituição contemporânea não tem limites. Tudo serve o desejo de quem paga. Do
fellatio no banco do automóvel, passa-se para a prostituição infantil, consumindo
virgindades com violência e voracidade num absoluto desrespeito pela condição e pela
dignidade. Mas se alguns gostam de violentar, outros gostam de maltratar, torturar e
matar.
A memória de Auschwitz não anda longe, de muitos dessas casas de "prazer" que
os governos legalizam e as comunidades aprovam pelos benefícios económicos que aportam,
sob a forma de um turismo sexual.
Um mundo de necessidades prementes, vai criando cada vez mais fundas demarcações
territoriais. Cujas fronteiras nem sempre são assinaladas com arame farpado, mas com
separações feitas de condições e singularidades. Etnias, religiões, culturas,
sexualidades, tudo vai servindo a obra da exclusão. Mas de todas, a da côr da pele é a
mais generalizada e também a mais primitiva e brutal.
Para o homem ocidental e branco a discriminação racial é ainda uma pura
representação. Primeiro porque ele não pode fazer a verdadeira experiência dessa
discriminação e depois porque o racismo, no seu próprio enunciado básico, reduz a uma
representação geral tudo o que é singular.
Quando se diz de uma pessoa que ela é negra, cigana ou asiática, limita-se desde logo
essa pessoa, e independentemente da realidade única que é a sua existência, à
totalidade de uma condição racial. Neste contexto, o branco nunca é descrito pela sua
raça, ainda que em determinadas circunstâncias possa ser nomeado, isto é, representado,
por uma condição que nada tem a ver com a raça e tudo a ver com uma situação social.
Dou um exemplo. Mesmo que os telejornais adoptassem uma fórmula politicamente correcta e
cada vez que um crime fosse cometido por um branco isso fosse nomeado, tal como se pratica
para a raça negra ou cigana, essa representação não remeteria para uma totalidade,
isto é, toda a raça branca, mas para uma diferenciação meramente operatória e quase
estética.
Ontem um roubo foi cometido por um indivíduo de raça branca em pleno centro de Lisboa
não tem o mesmo significado que dizer, ontem um roubo foi cometido por um indivíduo de
raça cigana em pleno centro de Lisboa. Para o branco ocidental, o indivíduo de raça
cigana, não é um indivíduo, é uma representação de todos os ciganos.
Um cigano, é na verdade um cigano qualquer.
É esta mesma capacidade de generalização representacional que permite, no teatro ou no
carnaval, que um branco pinte a cara de preto, para se fazer passar por um indivíduo
genérico de raça negra. Imagine-se o contrário. O negro com a cara pintada de branco,
continua afinal a ser, tão só e ainda, um negro.
Esta discriminação transforma o portador de uma raça não-branca no irrepresentado por
excelência. É a ele que cabe hoje, por toda a parte no mundo onde o económico se
estabelece também como distinção racista, o papel do maior excluído.
Mas deve tirar-se outra conclusão. Ainda que a segregação racial atravesse todas as
etnias, no actual contexto civilizacional, o branco é a origem e o destino mesmo do
racismo.
Na maioria dos filmes, particularmente os de produção norte-americana, assiste-se a uma
luta entre o bem e o mal. Trata-de de uma referência à cultura greco-latina, nessa
convicção moral de que o objecto de arte, ou mesmo de entrete-nimento, deve ter uma
utilidade pública qualquer.
Mas porque o cinema deseja ganhar um efeito de verdade, em muitos filmes o carácter
simbólico do épico confronto, vai sendo diluído, para dar lugar à sordidez de um
quotidiano em que nada de bom já está em causa e tudo se resume a uma luta entre várias
facções da mesma barbaridade.
Como nesses episódios em que todos os actores representam personalidades maléficas,
também na política, nos media, na vida corrente, vamos sendo confrontados com
situações em que todos os intervenientes são cúmplices de uma mesma trama escabrosa.
A guerra entre Israel e o mundo árabe, o confronto da China com Taiwan, o choque das duas
Coreias, as lutas pelo poder no mundo democrático, o universo da droga e sua óbvia
promiscuidade política, empresarial e policial, o terrorismo e o anti-terrorismo, são
tudo "filmes" em que só a maldade, a mentira e o crime estão presentes
qualquer que seja o ângulo que se tome.
Daí a irrelevância das narrativas circunstanciais. Já que ao contrário do tempo de
Homero, torna-se impraticável retirar um ensinamento positivo destas sagas feitas da mais
refinada maldade.
Qualquer alinhamento, é tomar o partido do mal.
Não há figura, na história da cultura ocidental, mais crítica do que a do palhaço.
Nessa breve transfiguração de um homem, revela-se a insignificância de todos os
humanos. Da melhor das maneiras. Rindo, não da representação, mas do humano em si
mesmo.
Por isso, esta criação do espírito culto sempre foi encarada com tanta seriedade.
Mas hoje, ao palhaço sucedeu a ridicularização de tudo e todos, numa multiplicação
incontrolável de objectos pretensamente humorísticos, cujo único sentido parece ser a
mais terminal degradação.
Isso é bem vísivel na cultura contemporânea. Arte para rir, música idiota e kitsch,
filmes de humor imbecil, programas de televisão onde se explora a mais extrema
humilhação dos participantes. Com um interminável cortejo de personagens patéticos,
simplórios e sórdidos prontos a tudo perder a troco de uma fugaz presença mediática.
Talvez o mais chocante de tudo isto seja a ausência de pensamento. Na mais assumida e
glorificada banalização do idiota.
No relato que escreveu sobre o julgamento do nazi Eichmann, Arendt afirma que a chocou, a
ausência de um pensamento. Impressionou-a a banalidade do mal, na manifesta incapacidade
de se conceptualizar.
O humor imbecil que assola a sociedade contemporânea é um equivalente da maldade do
extermínio. Porque a tremenda onda de idiotia que invade o nosso quotidiano, deriva da
mais refinada ausência da actividade de pensar. O idiota não pensa, leva com um bolo de
creme na cara. E o humor actual faz-se quase todo desses actos estúpidos e irrelevantes.
O palhaço crítico e inteligente está, também ele, em vias de extinção.
A maioria dos criadores destes programas e destes espectáculos tão em voga, são uma
outra faceta dos Eichmann. Verdadeiros exterminadores do pensamento. O deles e o de todos
os outros.
O palhaço sendo a crítica directa e activa do homem que existe por detrás da
maquilhagem, confere a esse mesmo homem uma lúcida sabedoria da existência.
Mas neste tempo de máscaras, surgiu por toda a parte um novo tipo de homem-palhaço. Não
já aquele que se reconhece na sua irrelevância, mas aquele que faz da irrelevância o
seu ser. Nunca o humor estúpido e degradante teve tanto sucesso. Nunca foram tantos,
dispostos a perder o último resíduo de dignidade, em troca de uma efémera figuração.
É triste ver gerações inteiras caminhar para os media num despojamento total da sua
humanidade, fazendo tudo o que se lhes exige e muito mais do que seria conveniente, em
troca de uns momentos de atenção e algum dinheiro.
Nas camadas jovens o sentimento de não-pertença é particularmente marcante. Pela
natureza mesma de uma geração, cujo desejo de superação é fundador, mas igualmente
porque a ausência de um espaço comum, nesse sentimento de não fazer parte de nada,
assinala o fim da vida ainda antes de esta verdadeiramente começar.
Sem outro objectivo que o da anuência, a juventude contemporânea é encaminhada para uma
gigantesca fábrica de exclusão e desumanidade. Consumindo o tempo em falsas necessidades
e escoando a vida em ilusórias urgências.
A juventude já não é um determinado momento da vida, mas uma ficção económica. Que
é necessário
preencher com produtos e consumos específicos. Esvaziada do seu próprio tempo, a
juventude é agora um drama do espaço exclusivamente mercantil, feito de uma ininterrupta
e doentia sucessão de superficialidades e solidões.
Não ter nada em comum, não é só a incontornável realidade dos excluídos. É também
a situação dos homens-correntes.
Na condição de pensadores irremediavelmente solitários, pois hoje não existe um
espaço comum capaz de produzir um saber colectivo, somos incapazes de realizar mais do
que denúncias e descrições.
Se algum sentido ainda tem a palavra fim, ela significa para a filosofia, para a política
e para a cultura, esse momento, não de mais uma morte, mas de uma extrema solidão.
Quando o objecto e o objectivo dos nossos pensamentos são uma e a mesma coisa. Pensar.
Nada mais.
O homem-corrente, aquele que vive sem a felicidade da experiência comum e o homem-lixo,
privado da sua própria humanidade, são duas facetas de uma mesma dissolução do humano.
A ambos falta um espaço de comunicação, uma verdadeira comunidade feita da vivência de
actos partilhados.
Por isso, o acto mais crítico, é agora a mais banal descrição dos eventos. Falar,
tratar as coisas com intimidade, dando os devidos contornos, que mesmo nada tendo de
criativos e resumindo-se a desenhos ténues, podem contribuir para a resistência aos
tempos. Não se pode desejar mais, nem se pode esperar menos, das mentes activas.
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