Vive com o teu século,
mas não sejas sua criatura.
Friedrich von Schiller |
Os homens-lixo
Leonel Moura
Edições Fenda - Lisboa (texto integral)
Parte 1 |
Traduzido em espanhol
Edições Iralka, Bilbao
e francês
Grasset/Mollat Éditions, Paris |
Um vagabundo que dormia num contentor,
foi recolhido pelo camião do lixo
e viu as suas pernas serem parcialmente
trituradas pelas garras da máquina.
Na visão das antigas colónias de leprosos
encontramos uma insuportável imagem da miséria humana. O cinema está cheio dessas
figuras envolvidas em trapos empapados de sangue, proscritos do convívio e atirados para
um lado qualquer, longe de tudo e desde logo da vida digna.
Ocupando uma parcela do território, reconhecido mas escondido da vista e da moralidade
pública, o leproso realiza idealmente o programa do imaginário abjecto. Pois nele se
conjuga a dupla condenação. A da natureza na decomposição do corpo vivo e a da
humanidade na recusa da pertença social.
Mas hoje, em tempo que se pensa a si mesmo como última civilização, a colónia dos
leprosos ocupa praticamente o globo inteiro. E não só literalmente, no crescimento de
devastadoras infecções que assolam favelas e bairros de lata, mas acima de tudo nessa
nova espécie de homem que se encontra mais perto do lixo do que de uma qualquer
condição humana.
Verdadeiros homens-lixo que vivem dentro de esgotos e se alimentam de detritos nos
depósitos municipais, numa descida às mais negras profundezas do asco e da inumanidade,
ilustram o quotidiano de todas as cidades do planeta e fazem de cada novo êxito
científico, económico, cultural ou pessoal, um detalhe patético num cenário de uma
crise irremediável.
Tudo o que era limite, da decência, da dignidade, da doença, da loucura, do abandono,
já foi há muito ultrapassado nas grandes urbes do nosso mundo e nesses campos de
refugiados que invadem as orlas e os desertos.
E nesta celebrada incapacidade de solucionar a desumanidade vigente, todos nós, cada um
à sua maneira, vamo-nos transformando em homens-lixo.
Na perda da última camada do ser que nos faz humanos.
Para a sociedade contemporânea, a exclusão é vista como catástrofe natural. Epidemia
que atinge uns e aparentemente poupa outros, numa selecção devedora das crenças, mais
do que da condição social. Os excluídos constituem uma intromissão visual nascida
directamente da contingência. Como uma chuva que cai quando lhe apetece.
Servem a precariedade da existência e aos olhos das vidas correntes apresentam-se como
símbolos, ruínas, deficiências, a caminho de um estatuto não-humano. Entidades
supérfluas, cuja única utilidade é de natureza exemplar, animando o destino dos
homens-correntes e a ténue alegria das vidas remediadas.
Sem pertença, política e social, não há humanidade. A exclusão resulta antes de tudo
numa expulsão da própria condição humana. A banição irremediável, a rota da
leprosaria.
Vita sanctorum socialis est, dizia Santo Agostinho. Fora da pertença nada de humano
existe. Não há humanidade, sem comunidade.
A experiência da exclusão não é transitória, nem resulta de uma suspensão
momentânea ou sobressalto acidental. A exclusão é a condição definitiva de um ser
atirado para um lugar exterior à vida comum. Só se sai dela com um renascimento.
O excluído é na verdade um pária, um estrangeiro sem país de origem, um leproso
condenado ao ostracismo.
Sem retorno.
Porque o eu se define na relação com os outros num espaço comum, a exclusão torna
alguém estrangeiro de si mesmo. O homem-lixo já não se reconhece como humano e
entende-se como obstáculo do progresso de todos.
Mendiga a dupla necessidade. A do estômago e a da culpa, pedindo o pão e o perdão.
Daí a surpreendente falta de raiva dos mendigos. Não lutam pela vida, mas pela
sobrevivência. Não reivindicam a pertença, mas tão só a permanência.
Sem pertença perde-se o sentido do comum. E não havendo nada de comum entre os homens,
desaparece também a consistência política. Os vagabundos são transparentes, não têm
espessura política. Por isso o olhar corrente os atra-vessa com tanta facilidade. Nas
ruas estão lá como os candeeiros, os recantos lúgubres, os dejectos da via pública,
aos quais só se dá atenção para protestar. E esse protesto que é a reivindicação da
humanidade, faz-se perversamente contra a mesma, porque quase sempre se limita a exigir um
desaparecimento, um afastamento ainda maior, cada vez para mais longe.
Assistimos assim a um excesso de humanismo. No momento mesmo da definição luminosa da
identidade humana, única e inegociável, dá-se a rejeição absoluta do outro. A daquele
que não fazendo parte, torna-se um incómodo, uma insuportável irritação para as vidas
correntes.
Nas chacinas e limpezas étnicas, os executores justificam os seus actos no não
reconhecimento de qualquer laço comum com as vítimas. A começar e a terminar na
própria humanidade, pois deixa de ver-se um humano, lá onde está um corpo pronto a ser
eliminado. Daí que tantas vezes se refira uma natureza animal ou abjecta do outro. Para o
exterminador, o inimigo é sempre um homem-lixo. Alguém que está a mais e perturba a
ordem natural das coisas.
A exclusão é o primeiro passo para a execução.
O nosso quotidiano civilizado está cheio desses seres que mantendo uma similar aparência
física, se afastaram de tal maneira da humanidade que perderam o laço comum. Pelo que
estão reunidas as condições objectivas e morais para a chacina dos homens-lixo. E essa
é já uma prática quotidiana. Imposta pelas autoridades, desculpada pela moral pública,
exigida pela economia.
É realizada de muitas formas. Pelo crime, fome, frio e isolamento. Mas acima de tudo pela
deportação, na ruptura violenta com os últimos resíduos de identidade.
Nos bairros de lata resiste-se às demolições, nos becos luta-se por um pequeno espaço
húmido. Porque mais do que territórios, está em causa a preservação de derradeiras
pertenças e últimos resíduos do humano.
Os homens-lixo são também o produto de uma arquitectura da exclusão. Onde não se
entende o urbanismo como desenho do espaço público, mas como sistema policial de
controle, vigilância, repressão e marginalização. Os vagabundos não vagueiam já pela
cidade, mas pelos seus defeitos, na busca incessante de erros e interstícios, fazendo das
falhas dos projectistas os últimos redutos de um território precário. Trata-se
visivelmente de uma guerra que transformou os arquitectos em militares, a quem se pede
cada vez menos criatividade e cultura e se exige crescentemente uma eficácia
exterminadora. Que estes aceitam, cumprem e celebram.
Do espaço público já nada resta no desenho arquitectónico. Aquilo que eram zonas de
convívio e partilha, as praças, os jardins, as arcadas, são agora exclusivos
territórios comerciais, onde as famílias remediadas passeiam nas tardes de domingo.
Centros comerciais e supermercados constituem a verdadeira paisagem natural dos
homens-correntes, numa comemoração ininterrupta de mercadorias.
Por isso os excluídos não têm lugar nestes lugares. Deles são permanentemente
escorraçados, por guardas e pessoal de limpeza devidamente identificado.
O assédio dos homens-lixo e o assalto de pequenos e grandes criminosos, faz de todos os
edifícios, públicos e privados, verdadeiras prisões de alta segurança. Onde não se
circula sem uma permanente vigilância de olhos e câmaras video, num registo obsessivo
dos mais irrelevantes gestos humanos. Sistemas de alarme, portas blindadas, entradas e
saídas de emergência, são agora a retórica criativa dos arquitectos.
Para o sistema capitalista o excluído é acima de tudo uma aberração económica. Não
produz, não integra o circuito reprodutor, não consome. Neste sentido é o pária
absoluto e vale menos, muito menos, que um animal doméstico. Pois mesmo estes vão
ganhando a sua condição económica, expressa nas secções que os supermercados dedicam,
na publicidade, nas exposições e na parafernália de inutilidades que lhes é
consagrada.
O homem-lixo não tem sequer uma qualidade doméstica. É a ratazana que dos esgotos
transporta a epidemia social.
Os excluídos não têm qualquer utilidade comercial. Nesse sentido tornam-se um
verdadeiro problema, que nada tem de humano, mas é liminarmente técnico e económico.
As soluções propostas por todos os governos do mundo passam invariavelmente pela sua
perseguição, afastamento para periferias das periferias, internamentos forçados em
verdadeiros campos de concentração, casas de correcção, asilos, prisões.
O excluído é uma excreção visual do falhanço do sistema, uma espécie de nódoa na
toalha de linho em noite de visitas. Deve ser removido a todo o custo.
Daí que se proceda à destruição dos bairros de lata, ao desmantelamento das ilhas de
degradação, à perseguição policial aos campos de párias. Sem que esteja em jogo a
condição social e política, nem a pertença, nem a parti-lha, nem o espaço comum, mas
tão só, a visibilidade.
Os excluídos devem ser eliminados, mas não através de um renascimento, um retorno à
humanidade, mas na mais pura operação de limpeza. Do lixo.
A erradicação das barracas, tarefa concertada de polícias, autarcas e economistas,
representa na maioria dos casos uma expulsão violenta de uma última pertença. Que
raramente tem algo que vêr com o destino dos excluídos e quase sempre com interesses
económicos e políticos bem definidos. Eliminam-se os bairros degradados para dar
visibilidade ao progresso, não para ganhar humanidade.
Para o espectáculo, o pobre nunca é uma realidade, é uma imagem.
As políticas sociais são uma tentativa, ao mais baixo custo, de apaziguar a revolta. A
assistência social, funciona por isso sempre no limiar da miséria. O suficiente para
não se morrer de fome, mas também para evitar túmultos. Na negociação para o retorno
sociável, o sistema nada tem para oferecer. Pede-se antes de mais uma submissão, para
logo depois se impôr a vida precária, sob a forma de uma distribuição de
apaziguamentos feitos de misérias. Por isso, a droga e a loucura assistida são mais
razoáveis. O suicídio também.
A desumanização, esse processo que atira para fora da humanidade cada vez mais vastas
franjas populacionais, sucede igualmente nas ilhas socializadas. Guy Debord chamou
espectáculo, ao sistema em que a acumulação de capital se transforma numa imagem e onde
o falso reina sobre o vivido. Para Hannah Arendt estamos perante uma perda irremediável
do espaço comum, e daí, a impossibilidade do pensar colectivo.
A experiência dos homens-lixo não afecta só os próprios. Atinge acima de tudo aqueles
que se julgam bafejados pela sorte, mas que afinal não são mais do que parte inteira de
um mesmo processo de degradação.
O homem-lixo arrasta para uma mesma lixeira todos os homens-correntes.
Não é preciso estar portador de doença contagiosa para se ser banido da humanidade.
Basta cair, e o termo é revelador, fora do contexto económico que a todos se exige. A
lepra é económica. O homem-lixo o seu produto.
Descrito como paraíso na terra, o capitalismo é um reinado de desolação. Visível na
degradação física e existencial das nossas cidades, vilas e aldeias. Nesse lento, mas
implacável, desastre ambiental que afecta o mais ínfimo recanto. No desenraizamento de
multidões, a quem se baniu o modo de vida simples e no desespero dos que tendo perdido um
meio de subsistência, sabem que nunca mais encontrarão outro. No descrédito total do
sistema de ensino e na perda irrecuperável das referências de identidade. Na rendição
dos países a uma globalização incaracterística, em prejuízo de actividades seculares
e na extinção impiedosa das comunidades. Na violência que alastra, num primitivismo que
jurámos, vezes sem fim, nunca mais permitir.
Na reflexão sobre a barbárie nazi, muitas vezes se questiona como foi possível todo um
povo assistir passivamente às chacinas, torturas, câmaras de gaz. A política de
extermínio sendo amplamente divulgada, como propaganda e como acção directa, não é
legítimo imaginar um vasto desconhecimento. Mas mesmo tendo em conta que nem todos
participaram nesses actos, eles implicaram a colaboração activa de muitos milhares de
pessoas.
Como foi possível o humano endurecer a tal ponto?
Temos hoje um exemplo disso mesmo no alinhamento dos telejornais. Depois de imagens de
chacina ou de cenários da mais absoluta das misérias, segue-se uma passagem de moda ou
um acto mundano qualquer. A indiferença perante tal contraste é absoluta. A cumplicidade
nos crimes faz-se dos silêncios daqueles que não se indignam.
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