Anos 70
Leonel Moura

Lugar-comum do discurso moderno e contemporâneo sobre a representação do homem e da sua sociedade no século XX, a fotografia revela-se afinal um objecto decepcionante. Desde logo pela generalização da banalidade. Não havendo hoje nenhum recanto da realidade ou das vidas correntes que não tenha sido reproduzido em múltiplos registos mecânicos e químicos, sem que se perceba a utilidade prática de tais exercícios. A começar pela manifesta incapacidade da revelação fotossensível em produzir realidade e consciência das poses e dos actos. Afinal, urna pessoa, sóbria e lúcida, ao mirar a sua própria imagem fugaz num bocado de papel ou numa reprodução tipográfica, não pode deixar de se sentir afectada pela mais profunda tristeza e melancolia. Na dupla constatação de que perdeu vida e de que a sua própria existência nada mais é do que um acumular de instantes profundamente irrelevantes.
Mas pior do que essa redução das vidas a meros registos de momentos irremediavelmente perdidos, a fotografia, pela sua própria condição técnica, implica o apagamento total dos indivíduos enquanto presenças. Em vez destas, impõe-se de forma abso¬luta e omnipresente, a própria representação. Ora, como se sabe, a representação nunca é a vida, e esta nunca pode ser representada. A série "Potlatch" aqui reproduzida descreve o processo.
Assim, nascido e vivido, num tempo de imagens, confesso que detesto fotografias. E ainda mais aquele género de fotografias que aspira a uma autonomia disciplinar e conceptual. Trata-se talvez de um velho conflito das artes do século. Mas na qual não quero deixar de assinalar urna posição clara. A fotografia, em si mesma, nunca me interessou. Hoje, tal como nos anos 70, só as ideias e as existências continuam ainda a excitar-me. Espero que este pequeno livro sirva em parte para o confirmar.

Sintra, Setembro de 1997
in Anos 70, Séries Fotográficas, Fenda Edições, Lisboa 1997


Lugar común del discurso moderno y contemporáneo sobre la representación del hombre y de su sociedad en el siglo XX, la fotografía se revela al final un objeto decepcionante. Por supuesto, por la generalización de la banalidad. No habiendo hoy ningún rincón de la realidad, o de la vida corriente, que no haya sido reproducido en múltiples registros mecánicos o químicos sin que se perciba la utilidad práctica de tales ejercicios. Comenzando por la manifiesta incapacidad de la revelación fotosensible para producir realidad y consciencia de las poses y de los actos. Al final, una persona, sobria y lúcida, que mira su propia imagen fugaz en un pedazo de papel o en una reproducción impresa, no puede dejar de sentirse afectada por la más profunda tristeza y melancolía. Constatando por partida doble que perdió vida y que su propia existencia es nada más que un acumular momentos profundamente irrelevantes.
Pero peor que esa reducción de las vidas a meros registros de instantes irremediablemente perdidos, es que la fotografía, por su propia condición técnica, implica el apagamiento total de los individuos en cuanto presencias. En vez de éstas, se impone de forma absoluta y omnipresente la propia representación. Aunque, como es sabido, la representación nunca es vida, u ésta nunca puede ser representada.
Así, nacido y vivido en un tiempo de imágenes, confieso que detesto las fotografías. Y todavía más aquel género de fotografías que aspira a una autonomía disciplinar y conceptual, Se trata tal vez de un viejo conflicto entre las artes de este siglo. A pesar de lo cual no quiero dejar de señalar una posición clara. La fotografía, en sí misma, nunca me interesó. Hoy, como en los años 70, sólo las ideas continúan excitándome. Espero que este pequeño libro sirva en parte para confirmarlo.